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sábado, 21 de outubro de 2017

Entre Irmãs


Drama histórico nacional Entre Irmãs (Brasil, 2017) de Breno Silveira, diretor dos excelentes 2 Filhos de Francisco (2005) e Gonzaga – De Pai para Filho (2012) aborda novamente questões familiares, numa bela história com o cangaço como pano de fundo. Baseado na obra A Costureira e o Cangaceiro de Frances de Pontes Peebles, o roteiro de Patrícia Andrade é uma obra rara de nosso cinema e merece ser prestigiada, pois certamente se tornará um clássico.

A trama se passa em Pernambuco, na década de 1930, onde Luzia (Nanda Costa) e Emília (Marjorie Estiano) são irmãs que vivem na pequena Taguaritinga do Norte, ao lado da tia Sofia (Cyria Coentro ). A vida destas três mulheres muda por completo quando o cangaceiro Carcará (Júlio Machado) cruza seu caminho, obrigando-as a costurar para o bando que lidera, numa máquina Singer operada por pedal.

Emília sonha com um príncipe encantado e em se mudar para a capital. Luiza não suportando a possibilidade de viver longe da irmã, não reluta ao se ver forçada a acompanhar o bando de Carcará. Emília então se casa com Degas (Rômulo Estrela) e vai para o Recife antigo, que tentava ser uma espécie de cidade europeia, com estudos por exemplo, na área de frenologia, uma teoria segundo a qual se pode determinar o caráter de uma pessoa pelo formato da cabeça, Dr. Duarte (Cláudio Jaborandy), pai de Degas.

Os destinos das irmãs é mostrado em paralelo, sendo que em vários momentos suas histórias se cruzam de forma aleatória. O filme transita com muita facilidade entre o urbano e a caatinga, numa montagem singular, intercalando as histórias das duas irmãs, deste um fatídico acidente na infância, que resultou num braço atrofiado de Luzia após uma queda de uma árvore até a ida de Emilia para morar em outro país.

Apesar da longa duração (160 minutos!) o longa é extremamente agradável e aborda temas relevantes como a questão da homossexualidade, tratada sob diversos olhares, com muito respeito e dignidade, especialmente com relação da personagem interpretada pela belíssima Lindalva (Letícia Colin), que aparece literalmente despida em uma cena magnífica onde Emília está deslumbrada com a primeira visão do mar. Emília é confrontada por Lindalva ao descobrir que seu casamento é uma conveniência. Ela tem um caso com a amiga, mas opta por continuar sua heterosexualidade. Isso sem falar na relação oculta de Degas com Felipe (Gabriel Stauffer) que também expõe o tema da ideologia de gênero, com consequências trágicas de uma forçada cura gay para o personagem homoafetivo.

A fotografia do filme é esplendorosa, valorizando o cenário da região com imagens deslumbrantes, e muitas vezes com grandes planos sequencia, especialmente nas cenas de maiores emoção. Dr. Eronildes (Angelo Antonio) tem uma relevante participação em momentos determinantes da trama, quando ele socorre Carcará e faz o elo de ligação entre as irmãs. A trilha sonora embora discreta, cumpre seu papel, tal qual uma mulher rendeira num sertão.

Todo o elenco global está muito bem em cena, especialmente a dupla protagonista. Destaca-se também a participação de Orelha (Fábio Lago) membro do bando de cangaceiros que contrapõe Carcará, em cenas em que se vê obrigado a comer uma lata de sal, após tratar com desdém a mulher inserida ao bando. Os ideais de justiça e de liberdade apresentados pelos cangaceiros está muito bem representado na trama. Certamente terá um público maior quando for exibido num formato de minissérie na Rede Globo.

Veja o trailer de Entre Irmãs:
 

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